Por Roderick Long

[ Ancient Greece’s Legacy for Liberty: A Tale of Two Sister. Esta é a quarta parte da série O legado da Grécia Antiga para a liberdade. São 27 partes. Tradução de Gabriel Goes ]

Hesíodo distinguia entre competição de mercado e guerra, dizendo que “as duas Discórdias têm naturezas separadas”.

Em 1888, um leitor do periódico anarquista individualista de Benjamin Tucker, Liberty, escreveu para contestar a defesa de Tucker da competição de livre mercado. “Competição, se significa algo, significa guerra”, argumentou W. T. Horn, “e, longe de tender a incrementar o crescimento da confiança mútua, leva, na verdade, à divisão e à hostilidade entre os homens”. Em resposta, Tucker argumentou que, pelo contrário, “[q]uando universal e irrestrita, competição significa a mais perfeita paz e a mais verdadeira cooperação; porque então se torna simplesmente um teste de forças que resulta na utilização mais vantajosa possível dessas”1.

A questão do vínculo entre guerra e competição econômica é muito antiga. Uma das mais justamente famosas passagens do poeta grego Hesíodo – e de interesse especial aos libertários – é sua discussão das “duas Discórdias”.

Primeiro, algum pano de fundo. Discórdia, ou Conflito, personificados como a deusa Éris, são importantes figuras da mitologia grega. Ela é geralmente associada ao deus da guerra, Ares, como sua irmã, sua amante ou ambas; algumas fontes, incluindo Homero, equivalem-na à deusa da guerra Enyo, mas outras distinguem entre as duas.

De acordo com a tradição mitológica da Grécia, Éris foi responsável por toda a Guerra de Troia, ao incitar uma disputa entre as mais importantes deusas do Olimpo sobre quem dentre elas merecia um pomo dourado com a inscrição “para a mais bela” – uma contenda cuja decisão tomada por Páris em favor de Afrodite levou essa deusa a presenteá-lo com a mais bela das mulheres, Helena, sem ao menos consultar seu marido.

Em outra história antiga2, um casal humano, Aédona (Aëdon) e Politecno (Polytekhnos), é punido por Éris por ter se gabado de que seu amor mútuo era maior que o dos deuses; Éris atrai o casal para uma competição de artesanato, a qual Politecno perde, levando o marido ressentido a se vingar contra sua esposa Aédona ao estuprar e escravizar sua irmã, o que, por sua vez, incita Aédona a se vingar de Politecno matando seu filho, cozinhando-o e dando-o de comer ao pai – dessa forma estabelecendo que o amor do casal era, de fato, um pouco mais frágil do que eles haviam proclamado.

Em suma, Éris não é coisa boa.

Essa deusa da Discórdia figura nos épicos homéricos como se segue (o tradutor apresenta “Éris” como “Ódio”):

Ódio, cuja ira é implacável,

ela, a irmã e companheira do assassino Ares,

ela, que é apenas uma pequena coisa a princípio, mas daí em diante

cresce até que pise sobre a terra com a fronte a rasgar os céus.

Ela então lançava amargor igualmente aos dois lados

enquanto caminhava entre o massacre, tornando a dor dos homens ainda mais pesada.3

Perceba como Discórdia é aqui retratada tanto de forma metafórica – começando como algo pequeno mas depois crescendo, como um conflito literal –, quanto de forma antropomórfica, como um guerreiro armado abrindo caminho pelo campo de batalha. A metáfora de Homero aparece em uma das fábulas de Esopo também4: o herói andarilho Héracles (Hércules) encontra um pequeno objeto em seu caminho e, sendo quem é, tenta esmagá-lo com sua clava, só para descobrir que cresce com cada golpe – até que a deusa Atena intervém e o aconselha de que, sem saber, ele combate Discórdia, ou Éris, que só se alimenta da oposição5.

Éris também aparece na Teogonia de Hesíodo, que contém uma genealogia dos deuses. O poeta descreve Éris (traduzida aqui como “Discórdia”) como a fonte da maioria das misérias da vida humana:

E ela, Noite destrutiva, deu à luz Nêmese, que dá imensa dor

aos mortais; e depois a fraudulenta Enganação e a amorosa Afeição

e a maligna Velhice e a arrogante Discórdia.

A odiosa Discórdia, por sua vez, deu à luz a dolorosa Dificuldade,

e o Esquecimento, e a Fome, e as Dores, cheias de lamentos,

as Batalhas e as Querelas, os Assassinatos e os Massacres,

as Aflições, as mentirosas Histórias, as Disputas,

a Ilegalidade e a Ruína, que dividem uma mesma natureza,

e o Juramento, que causa mais dano do que qualquer outro aos

homens terrenos, quando alguém, em consciência, comete perjúrio.6

Porém, em “Os Trabalhos e os Dias” (presumivelmente escrito após Teogonia), Hesíodo provê uma espécie de retratação. A deusa que ele descreveu na verdade são duas deusas diferentes; e enquanto uma delas é tão danosa quanto ele disse anteriormente, a outra é benéfica:

Nunca foi verdade que só há um tipo de discórdia.

Sempre houve

duas na terra. Há uma de que se pode gostar quando se a entende.

A outra é detestável. As duas Discórdias têm naturezas separadas.

Há uma que incita a guerra má e o massacre.

Ela é impiedosa; ninguém a ama […]

Mas a outra é a primogênita da negra Noite. […]

e é muito mais doce.

Ela estimula o homem indolente ao trabalho, mesmo com toda sua preguiça.

Um homem olha para o seu vizinho, que é rico: então ele também

quer trabalhar […] Tal Discórdia é uma boa amiga para os mortais.

Dessa forma, oleiro é inimigo de oleiro, artesão é rival de artesão;

vagabundo tem inveja de vagabundo, e cantor, de cantor.7

Aqui, Hesíodo traça a distinção crucial entre os dois tipos de conflito: guerra, por um lado e, por outro, competição econômica. O tipo de rivalidade que leva ao derramamento de sangue é condenado; mas aquele que leva competidores a superar outros no provimento de bens e serviços é celebrado. O motor da boa Discórdia é o desejo por riqueza e benefícios materiais; longe de ser um motivo ignóbil, a ser comparado de maneira desfavorável com as glórias da honra militar, a ambição comercial com interesse próprio é aqui louvada como o incentivo do progresso.

De volta à Teogonia, antes que a boa Discórdia tivesse sido identificada, Hesíodo descrevera a Discórdia má como filha da Noite. Contudo, em “Os Trabalhos e os Dias”, o poeta informa que a boa Discórdia é a filha mais velha da Noite, o que implica ser a má Discórdia sua irmã mais nova. A sugestão é, talvez, de que a boa Discórdia é a original e saudável forma de conflito, e a Discórdia má uma perversão mais recente dela – um tema que se encaixa na narrativa de Hesíodo de um declínio gradual da civilização humana de uma Era de Ouro de paz e prosperidade rumo a uma Era do Ferro cruel e selvagem, na qual ele lamenta ter nascido.8

A oposição que o poeta cria entre competição econômica e conflito violento não é geralmente feita por outros que escreveram sobre Éris. Na já mencionada história de Aédona e Politecno, por exemplo, o conflito inspirado por essa deusa entre os dois amantes começou com uma competição de trabalho produtivo antes de degringolar em uma vendeta brutal; a escalada é apresentada como uma mudança em grau, não em tipo. O reconhecimento de uma diferença essencial entre a Discórdia que se expressa em derramamento de sangue e a Discórdia que se expressa no desejo de prover os melhores bens e serviços é um traço distintivo da obra de Hesíodo.

Como outrora vimos, Homero também contrastou os caminhos da guerra e da paz; mas ele não destacara o papel da competição econômica no último. A única disputa que Homero descreve em sua “cidade da paz”, a alternativa pacífica à guerra, é um processo legal9 – forma de rivalidade sobre a qual Hesíodo é muito mais pessimista, descrevendo as cortes como arenas não da boa Éris, mas da má, “a Discórdia que ama a confusão”, nas quais os participantes “fazem planos para ter os bens dos outros”, enquanto os juízes “se alimentam de subornos”10. A ligação entre a competição do mercado e a prosperidade serena parece ser uma inovação de Hesíodo – o que o faz um importante precursor das ideias libertárias.

1. Benjamin Tucker, “Does Competition Mean War?” em Instead Of A Book, By A Man Too Busy To Write One. Originalmente publicado em Liberty, 4 de Agosto de 1888.
2. Antoninus Liberalis, Metamorphoses 11.
3. Homer, Iliad 4.440-445; Richmond Lattimore translation (Chicago: University of Chicago Press, 1951).
4. ”Heracles and Athena,” Aesop’s Fables, trans. Laura Gibbs
5. Esse tema de um guerreiro famoso por sua força sendo incapaz de derrotar um inimigo aparentemente insignificante que na verdade se mostra como a personificação de uma vasta força cósmica também é encontrado na mitologia nórdica, na história da visita de Thor a Utgard, onde seus oponentes disfarçados incluem o Mar, o Fogo e a Velhice: The Younger Edda: Also called Snorre’s Edda, or The Prose Edda trans. Rasmus B. Anderson, Chapter 14: “Thor’s Adventures.”
6. Hesiod, Theogony 223-232; Richmond Lattimore, trans., Hesiod: The Works and Days; Theogony; The Shield of Herakles (Ann Arbor: University of Chicago Press, 1959).
7. Hesiod, Works and Days 11-26.
8. Works and Days 109-201.
9. Iliad 18. 497-508.
10. Works and Days 27-39; cf. 256-264.